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Artigo completo em PDF (16 páginas)
Vídeo da apresentação na Jornada de Pesquisa 2025 do IE-UFRJ (25 minutos)
Apresentação (14 slides)
O tema deste trabalho é a análise do jogo de Go como analogia à Teoria da Circunscrição de Robert Carneiro, que busca explicar a formação dos primeiros Estados a partir de condições ambientais, pressões demográficas e guerras. A nossa dissertação, no momento em processo de elaboração, tem como tema “Circunscrição e Complexidade Social” e pretende abstrair algumas das características factuais e empíricas da Teoria da Circunscrição de Carneiro e propor uma versão mais abstrata dela, com possíveis usos além da formação dos primeiros Estados. Dentro deste estudo formulamos a presente hipótese de que as mecânicas do jogo de Go – peças homogêneas, expansão territorial, captura por circunscrição e impossibilidade de fuga em um tabuleiro finito – podem representar de uma forma abstrata e didática os mesmos processos sociais descritos por Carneiro em sua teoria. O objetivo, portanto, é demonstrar como o Go pode ser utilizado como ferramenta interpretativa e pedagógica para compreender dinâmicas históricas complexas, como o surgimento de estruturas políticas centralizadas em ambientes circunscritos.
Discussão
O Go, um dos mais antigos jogos de tabuleiro em prática contínua, apresenta regras simples, mas gera complexidade estratégica inigualável. Dois jogadores alternam a colocação de pedras pretas e brancas em um tabuleiro de 19×19 interseções, com o propósito de cercar territórios e capturar grupos adversários.

Exemplo de contagem de território ao final de uma partida de GO de 13 linhas.
As pedras, uma vez posicionadas, não se movem: sua permanência depende da existência de “liberdades”, ou seja, interseções adjacentes vazias. A partida termina quando ambos os jogadores passam a vez, e vence quem controla mais território. Apesar da simplicidade estrutural, o jogo é marcado por uma profundidade tática que o transformou em arte, filosofia e objeto de estudo científico.
O aspecto crucial do Go para a analogia com a Teoria da Circunscrição está em sua lógica espacial. O tabuleiro é um espaço finito, cujas bordas funcionam como barreiras intransponíveis. A cada jogada, o espaço disponível diminui, e os grupos de pedras tendem a se fragmentar ou a se expandir, buscando consolidar territórios. Esse processo remete à dinâmica de comunidades neolíticas descritas por Carneiro: sociedades autônomas que, diante do crescimento populacional, se dividem em novas aldeias até que o território disponível se esgote. Quando não há mais terras aráveis, a competição leva a conflitos, e a guerra, em ambientes circunscritos, resulta na incorporação dos vencidos e na centralização do poder político.
A comparação se torna ainda mais clara ao considerar variações hipotéticas. Em um tabuleiro infinito, grupos ameaçados poderiam recuar indefinidamente, impossibilitando capturas. De modo análogo, em sociedades não circunscritas, a possibilidade de migração impede a formação de Estados centralizados, uma vez que as comunidades derrotadas podem simplesmente se deslocar. Esse contraste foi explorado por Carneiro ao comparar a Amazônia – espaço aberto, onde chefaturas se formaram sem evoluir para Estados – e os vales costeiros do Peru – regiões de vales férteis cercados por montanhas e desertos, onde populações derrotadas não tinham como se evadir e foram gradualmente incorporadas em unidades políticas mais complexas.

Regiões onde se desenvolveram os estados originários. Estados que surgiram sem influência de outros estados anteriores
A teoria de Carneiro se insere entre as explicações coercitivas para a formação do Estado, contrapondo-se às teorias voluntaristas, que atribuem o processo a contratos sociais, à cooperação hidráulica ou a impulsos civilizatórios espontâneos. Para Carneiro, a guerra é decisiva, mas apenas em ambientes delimitados. As sociedades neolíticas amazônicas tinham elevada produtividade agrícola, suficiente para gerar excedentes, mas como não estavam circunscritas, a dispersão geográfica impediu a formação estatal. Já nos vales peruanos, a ausência de alternativas espaciais levou os derrotados a serem submetidos, e a guerra consolidou hierarquias que evoluíram para Estados.
O Go, nesse sentido, oferece uma visualização intuitiva desse processo. Cada pedra pode ser vista como uma aldeia ou comunidade homogênea. O ato de cercar e capturar reflete a impossibilidade de evasão em territórios delimitados. A expansão das pedras vencedoras sobre os espaços libertados simboliza a incorporação de povos derrotados. Essa dinâmica reforça a ideia de que a centralização política surge quando a liberdade de movimento é restringida, e não apenas pela produtividade ou pela cooperação voluntária.
Além de sua dimensão histórica, a analogia com o Go ganha relevância pedagógica. Assim como o Xadrez foi usado para discutir hierarquias sociais e estratégias militares, o Go pode ser empregado para ilustrar dinâmicas de circunscrição e conflito. Seu valor didático reside no fato de que, a partir de regras mínimas, simula-se um processo de alta complexidade emergente, em que cada decisão local tem repercussões globais. Esse paralelismo não apenas facilita a compreensão da teoria de Carneiro, mas também exemplifica como jogos podem servir como representações culturais e analógicas de processos sociais.
A reflexão se estende ainda para outros jogos. O Xadrez, por exemplo, representa uma sociedade hierárquica, com peças diferenciadas e objetivo centralizado na captura do rei, remetendo a guerras entre elites estatais. Já o Go expressa uma guerra total, característica das sociedades pré-estatais, em que toda a população era envolvida e afetada. Outros jogos, como Diplomacia ou Monopoly, apresentam analogias explícitas com sistemas políticos ou econômicos modernos. Até mesmo jogos simples, como a Velha, podem ser usados como metáforas – no caso, para a lógica de impasse gerada pela destruição mútua assegurada durante a Guerra Fria. Nesse panorama, o Go se destaca por sua antiguidade e por sua capacidade de condensar lógicas de expansão e contenção aplicáveis à antropologia política e, possivelmente a outras situações históricas de aumento da complexidade social.
Resultado
O principal resultado da análise é a constatação de que a estrutura do Go reflete de forma surpreendente a lógica da teoria da Circunscrição. O jogo pode mostrar como o aumento populacional (colocação contínua de pedras) leva inevitavelmente ao preenchimento do espaço disponível. A permanência das peças pode representar o caráter fixo dos assentamentos agrícolas. A guerra está presente desde a primeira jogada, já que cada pedra disputa território com a cor oposta. O limite físico do tabuleiro equivale às barreiras geográficas, sem as quais não haveria captura ou submissão. Por fim, a captura, que transforma pedras derrotadas em pontos para o adversário, reproduz a ideia de incorporação de povos conquistados em sistemas centralizados.
A analogia se confirma também ao se observar que, em tabuleiros infinitos, o jogo perderia sua lógica competitiva, tal como em sociedades não circunscritas não se formaram Estados sem a influência de outros estados preexistentes. Além disso, a comparação com o Xadrez pode evidenciar a diferença entre guerras pré-estatais e guerras estatais. Enquanto no Xadrez a luta é entre elites especializadas, no Go cada peça equivale a uma comunidade inteira, e sua perda afeta diretamente a sobrevivência coletiva. Essa característica aproxima o jogo da ideia de “guerra total” no período neolítico, em contraste com as guerras elitizadas das sociedades estatais posteriores.
Conclusão
Embora não se possa afirmar que o Go tenha sido criado com a intenção de representar processos políticos neolíticos, sua estrutura lógica coincide com os elementos centrais da teoria de Carneiro. O jogo mostra como comunidades homogêneas se multiplicam, disputam território, são circunscritas e eventualmente absorvidas, em um processo que reflete o surgimento dos primeiros Estados. Mais do que uma coincidência histórica, trata-se de uma convergência entre lógicas estratégicas inscritas em práticas culturais e teorias sociais modernas. Além disso, ao contrastá-lo com o Xadrez e outros jogos, percebe-se como diferentes formas lúdicas refletem diferentes estruturas sociais.
Em síntese, o trabalho mostra que o Go pode ser usado como ferramenta pedagógica e interpretativa para explorar a teoria da Circunscrição. Ao transformar conceitos complexos em visualizações intuitivas, o jogo reforça a compreensão de processos sociais de longa duração. Essa abordagem amplia a tradição de estudos que, desde Huizinga, reconhece nos jogos um espelho da cultura. Assim, ao propor o Go como analogia à teoria de Carneiro, reafirma-se a relevância dos jogos como instrumentos de reflexão sobre a formação do Estado e sobre a própria condição humana diante da circunscrição de seus limites.
Bibliografia
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