Resumo


A Ficção Científica e suas economias para além do tempo

Ursula K. Le Guin, ganhadora de seis Prêmios Nebula e sete Prêmios Hugo, além do National Book Award e 22 Prêmios Locus, afirmou que a Ficção Científica trata do presente, mesmo quando a história narrada acontece no futuro.

Entendendo assim, as duas economias do planeta Inverno de “A Mão Esquerda da Escuridão” (1969), são descrições “de uma realidade maior” que inclui a psicologia e as pulsões que o “hoje” provoca. Nestas economias a androginia podia ser pensada como norma biológica e moldar formas diferentes de exercer o poder. Já em “Os Despossuídos” (1974), Le Guin explora a mecânica da escassez, contrastando uma sociedade mutualista de anarquistas isolados em uma lua pouco produtiva com as sociedades expansionistas focadas na acumulação, dando vazão à nossa pulsão recorrente de homogeneidade ideológica.

Seguindo a visão de Le Guin sobre a especulação como um laboratório que não prevê o futuro, mas potencializa a reflexão sobre o presente, podemos pensar o feudalismo de “Duna” (1965), de Frank Herbert. Sua economia baseada no monopólio de uma “especiaria” produzida num mundo deserto reflete como as posições econômicas privilegiadas das corporações no imperialismo moderno replicam estruturas econômicas e políticas consideradas ultrapassadas.

Robert A. Heinlein é um ícone libertário, precursor involuntário do anarcocapitalismo do século XXI (que ele detestaria!), e podemos ver sua obra como um saudosismo da fronteira aberta. A Teoria da Circunscrição (1970) do antropólogo Robert Carneiro postula que o Estado (e a coerção) surge quando as populações não têm para onde fugir; o fechamento geográfico e o conflito geram subordinação. A resposta de Heinlein a esse meu anacronismo analítico é simples na sua “História do Futuro” (forma bibliográfica como ele organiza parte de sua obra dentro de uma linha do tempo): reabra a fronteira e o Estado não o alcança. O Espaço é a “Fronteira Infinita”. Para Heinlein, a Terra é o ambiente circunscrito definitivo, burocrático e tributado. O espaço representa a válvula de escape. Se você não concorda com o contrato social da Terra, pode entrar em uma nave e ir embora. Em “Amor sem Limites” (1973), ele ultrapassa até a circunscrição do tempo em busca dessa liberdade ilimitada.

A “Série dos Robôs” (1954-1985), de Isaac Asimov, frequentemente lida como um thriller policial, é também um estudo radical de uma sociedade pós-economia política, onde o trabalho humano foi abolido. No planeta Solaria, os humanos vivem isolados e servidos por milhares de robôs; o contato físico é quase imoral. Em contraste, na Terra superpovoada, a presença robótica sofre constantes tensões de aceitação e rejeição nos centros urbanos.

Em “Os Robôs e o Império” (1985, último da série), a ausência de impulso econômico expansivo nos planetas Siderais os torna passíveis de serem dominados pelos terráqueos, mesmo com sua extrema riqueza homeostática. Assim Asimov explora a interseção entre identidade humana, tecnologia e dinâmicas de subsistência.

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